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Morrer como um espírito livre

por Bel Cesar em Espiritualidade
Atualizado em 08/04/2020 11:35:21


No dia 14 de fevereiro de 2017, faleceu um grande mestre do budismo tibetano: Guelek Rimpoche. Eu o conheci em 1991, quando organizamos sua vinda para o Brasil, a pedido de Lama Gangchen Rinpoche, para nos dar ensinamentos no Centro de Dharma da Paz Shi De Choe Tsog. Era um tempo de ouro. Tínhamos a oportunidade de estar muito próximos aos grandes lamas em pequenos grupos, como grandes famílias.

Guelek Rinpoche nasceu em Lhasa, no Tibete, em 1939. Foi reconhecido como a reencarnação de um importante lama aos 4 anos de idade. Por isso, foi cuidadosamente tutelado pelos maiores mestres do Tibete. Ganhou notoriedade pelo seu poder de memorização, julgamento intelectual e discernimento. Refugiou-se na Índia durante a invasão da China ao Tibete. Em 1988, fundou nos Estados Unidos o centro budista tibetano Jewel Heart (Jóia Coração) onde passou a viver até a sua morte recente. Para saber mais a seu respeito dê um Google em Gelek Rimpoche, Jewel Heart Channel.

Lembro-me de ter lhe perguntado diretamente: "Como você conseguiu atravessar as montanhas do Himalaia a pé quando fugiu do Tibete?" Ele respondeu calmamente: "Cada vez que atravessava uma montanha, atravessava, olhava a seguinte e ia em frente com fé." Sem questionamentos extras, ele seguia em frente.

Seus ensinamentos tiverem um forte impacto em minha mente. Hoje, compartilho com vocês minhas anotações quando ele nos falou sobre a morte em março de 2000, durante o congresso "The Art of Dying" (A Arte de Morrer) em Nova York. Transcrevo-as entre aspas, tal como estão em meu caderno.

''Morrer é natural. O problema é que não vemos o sofrimento como algo natural, por isso, não o aceitamos. Achamos que o natural seria ser isento de sofrimento. Como se sofrer não fosse algo correto. Isso não quer dizer que é certo sofrer, pois não se trata de uma questão masoquista, mas sim que confundimos a visão moral que nos diz sobre o que é certo, com a visão da realidade humana do que é natural.  É próprio do ser humano sofrer, não há nada de errado com isso. Quer dizer, não precisamos tomar como um erro pessoal o fato de sofrermos. Também não significa que precisamos sofrer. O problema é que como vemos o sofrimento como algo injusto, então queremos que alguém se responsabilize pela nossa dor.

De modo semelhante achamos que a morte está errada e é injusta. Talvez essa sensação de injustiça esteja baseada na nossa carência diante da vida: 'quero viver mais para receber o que ainda não recebi desta vida'. Morrer é algo mais profundo do que natural. De fato, é triste, mas é natural. É triste e natural porque é o final do nascimento, é o final do que quer que tenhamos acumulado nesta vida.

O sentido e o valor que cada um dá à sua vida é que faz a diferença de como lidamos com esse sofrimento natural. Se você dá sentido e valor material à sua vida, ela acabará com a sua morte física. Mas se você dá um sentido ou valor espiritual à sua vida ela não acabará com a morte. Esta é a missão de cada um: dar um sentido à sua vida e cultivar esse valor.

Preparar-se para a morte é como fazer uma mala de ultima hora para viajar. Sempre esquecemos de alguma coisa. Mas se nos preparamos aos poucos, teremos tempo para lembrar de tudo que queremos levar.  O que queremos levar quando partirmos desta vida? Quando eu me for, não quero ir com raiva, insatisfeito ou arrependido. Eu quero ir como um pássaro que levanta voo do topo de uma montanha. Estes sentimentos pesados são como fortes âncoras que não nos permitem levantar voo.  Outra coisa que é verdade: não quero ninguém segurando os meus pés. Não quero nenhuma carga nas minhas costas. Quero ir com o espírito livre. Precisamos aprender a seguir caminhando até sentir que não há mais pegadas atrás de nós. Por isso, precisamos arrumar nossas malas todos os dias: deixar de por algo na bagagem que não queremos levar. Se continuarmos pensando que a morte está longe, não começaremos a arrumar nossas malas. Precisamos cultivar uma certa urgência, senão nunca nos iremos nos mexer. Nos preparar para a morte é uma forte motivação para nos livrarmos de nossa negatividade. Afinal, ao morrermos queremos ser acolhidos pelo espaço aberto e não pela estreita passagem do bardo.''

Guelek Rinpoche deixou claro que, quando tocamos o sentido da vida, não medimos mais esforços para vivê-la. E concluiu dizendo: "Vive mais quem faz planos mais longos. Há um ditado tibetano que diz: 'Até mesmo se você tiver só mais três dias de vida, seus planos deveriam ser como se você tivesse ainda cem anos por viver'. Façam o que precisa ser feito; assim, quando a morte chegar, não terão arrependimentos".



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bel
Bel Cesar é psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. É também autora dos livros `Viagem Interior ao Tibete´ e `Morrer não se improvisa´, `O livro das Emoções´, `Mania de Sofrer´, `O sutil desequilíbrio do estresse´ em parceria com o psiquiatra Dr. Sergio Klepacz e `O Grande Amor - um objetivo de vida´ em parceria com Lama Michel Rinpoche. Todos editados pela Editora Gaia.
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