Encontros e desencontros do Caminho - Final do Capítulo 17 e Capítulo 18 - 1a. parte
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Autor Fernando Tibiriçá
Assunto AutoconhecimentoAtualizado em 2/18/2006 1:25:33 AM
No Brasil, é grande o número de aposentados sem nenhum merecimento. Pior ainda, há filhas de aposentados que morreram, que não se casam para não perder a aposentadoria dos pais a que têm direito. 30, 40, 50 mil reais mensais é comum. E tudo isso, muitas vezes, para uma filha que nunca trabalhou. O pai ganhava mais do que o Estado podia pagar e, assim que ele morre, essa filha fica com a aposentadoria do pai. Entendeu?
Há famílias ainda que preparam seus filhos para serem compradores ou gerentes de compras ou funcionários de compras do governo ou fiscais de alguma coisa. É a garantia da prolongada existência dessas famílias, que ainda gozam de uma generosa aposentadoria.. E o Lula e o Brasil procuram o caminho.
Já era hora de começar a arrumar minhas tralhas para voltar ao Brasil. Meu avião partiria no final da tarde do dia seguinte para Madrid. São Paulo, na madrugada do dia 12. Sentia falta da minha família e da minha gente. Foram 43 dias fora de casa. Saudade da comidinha caseira, da companhia do meu filho e da minha rotina, que, com certeza, seria alterada.
Capítulo 18
Agora sou um paulistano, paulista, brasileiro, sul-americano que, no caminho, me tornei cidadão do mundo. Convivi direta ou indiretamente com pessoas envolvidas num mesmo propósito, de muitos países, falando tantos idiomas e com comportamentos os mais variados. Me sinto importante e muito feliz. A peregrinação, afinal, estava mesmo chegando ao fim. Acho que ela só acabará de verdade quando eu estiver entrando em casa, em São Paulo. Ou nunca acabará. Mas antes, tinha o aeroporto e o avião. Ainda tinha muito caminho.
Embora pequeno, o aeroporto de Lavacolla, que atende à cidade de Santiago de Compostella, recebe vôos para o mundo todo. Cheguei cedo, me acomodei, após despachar minha mochila e meu cajado, e fiquei observando os tipos. Havia muitos peregrinos europeus indo embora, mas havia muitos mais bastões e cajados sendo despachados. Para muita gente ali, era hora de ir embora e também era tempo de reflexão. Havia muito sobre o que refletir, havia muita lição de casa para se fazer.
Sentia que meus acompanhantes também perambulavam pelo aeroporto, talvez à espera de suas naves espaciais. Muitas vezes, enquanto caminhava, pensava em como os peregrinos sobreviveram ao longo dos tempos. Hoje, muitos usam celulares, roupas de alta tecnologia, apoio de carros, vitaminas e alimentação especial, hospedagem razoavelmente boa ou muito boa, transporte de mochila, internet etc.
Séculos atrás, o caminho tinha um trajeto definido ou quase. Não sei como era a sinalização naquela época, mas, decerto, alguma sinalização deveria haver. Monastérios e conventos eram usados como albergues. O campo e as árvores muitas vezes se transformaram em cama e proteção. Certamente, a natureza seria mais presente do que hoje, quando as invasões das carreteras tomam conta de boa parte do caminho, as torres de alta tensão, os novos povoados. Certamente, haveria mais árvores, rios, pássaros e animais. Com isso, o abastecimento do peregrino estava garantido.
Agora, são dezenas de bares, restaurantes, máquinas de bebidas e comidinhas... Num estalar de dedos, o peregrino tem tudo a mesa. Menus especiais para os peregrinos, com preços mais em conta, estavam por toda parte, apesar de alguns maus comerciantes que não levavam esses preços mais baixos em consideração. Fruteiros, padeiros e leiteiros circulavam pelo caminho com vans. Artesãos, aos montes. Podia-se beber vinhos originários de toda a Europa à vontade. Farmácias e a Cruz Roja atendiam os peregrinos nas suas necessidades.
Os peregrinos de 300, 400, 500 anos atrás viveram a autenticidade do caminho. Comiam e bebiam por conta própria e, eventualmente, recebiam a atenção dos hospedeiros e religiosos. Se tivessem dinheiro, pagavam. Caso contrário, teriam carinho e respeito de quem hospedasse.
Hoje, o caminho é um negócio que dá dinheiro a muita gente que não tem outra forma de sobreviver. Muitos usaram suas economias e bens para investir nos negócios do caminho. Bebida, comida, hospedagem, transporte e outros serviços são quase que uma mina de ouro naquelas paragens para espanhóis e estrangeiros radicados no país. O problema é que o caminho se tornou alvo de turistas e o peregrino se transformou em uma espécie a ser admirada e fotografada. No zoológico da vida, peregrino e caminho são atrações turísticas e a garantia de faturamento do comércio local.
Hoje, os peregrinos são ciclistas campeões, equipes de ecoturismo, atletas de triatlon treinando, gente emagrecendo, aventureiros e curiosos, todos com apoio de carros, alimentação e o que mais quiserem. Pouquíssimos assistem a uma missa ou visitam uma igreja. Dificilmente, falam ou conversam sobre espiritualidade. A banalização definitivamente chegou ali. Paquera, troca de favores, encaminhamento de negócios e troca de informações fúteis também fazem parte do caminho atual.
Finalmente, dentro do avião, lotado de brasileiros. Destino: Brasil. Time de futsal, garotada, mães ameaçando dar porrada nos filhos, gente ocupando assentos que não são os seus, jogo de baralho a dinheiro, desordem total. Já sentia o cheiro do Brasil, me sentia em casa, apesar de o avião ser espanhol. Estava a caminho.
Para mim, cada vez mais o certo tem cara de certo e o errado não tem como esconder que está errado. É a coisa do é ou não é. Não tem mais ou menos. No Brasil e no mundo, quem puder garantir o seu lugar no futuro vai ter que fazê-lo mesmo que seja em detrimento dos mais fracos. Não dá mais para perder tempo com tolices ou excesso de solidariedade com o que não vai dar certo ou não vai mudar ou não quer ser mudado. Incapazes, incompetentes e inconseqüentes começarão a desaparecer de cena. Eles não conseguirão atravessar para outra dimensão do jeito que são. Não irão se salvar. O resgate civilizatório já começou. Quem é autêntico e fala com o coração estará propenso a fazer parte dos escolhidos nesse processo seletivo.
O que se pode fazer, a essa altura, é tentar resgatar quem queremos bem ou a nós mesmos. Tudo ou todos já é ou será impossível. Felizmente ou infelizmente, muitas catástrofes acontecerão se o homem for incapaz dele mesmo promover o desaparecimento de regiões e áreas em todo o mundo.
O processo seletivo fará com que o ruim ou ignorante ou perverso ou cruel ou pouco construtivo desapareça. O público deixará de ver programas de televisão e outras atividades culturais ordinárias, pouco educativas. A droga não será mais consumida, não haverá mais razão para isso. As misturas e os efeitos maléficos farão muitas pessoas pensarem sobre o uso das drogas. E assim será com tudo. É irreversível. Muitos sábios e estudiosos de várias religiões e de muitos países já sabem disso. Não propagam para não provocar o desarranjo que tais informações causariam. Com isso, esperam o uso de armas atômicas, terremotos, maremotos, doenças em grande escala para depois dizer que era inevitável. Estamos chegando no caminho sem caminho.
Leia os 18 Capítulos neste Site ou peça o livro completo via e-mail que o enviarei gratuitamente com prazer.
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