O Oba Oba dos Tambores
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Autor Shee Sheerran
Assunto AutoconhecimentoAtualizado em 7/20/2008 5:47:03 PM
Festas, grandes comemorações, alegria, troca de gentilezas e presentinhos. Tudo isso em comemoração ao centenário da Imigração Japonesa para o Brasil.
Um Oba Oba gigante! Assim eu vejo.
Eu que não sou descendente e passei nove anos de minha vida, nesse país e vivenciei não só as minhas dificuldades mas a de centenas de descendentes em sua inadaptação e desespero, desestruturação emocional e familiar (atendendo com minhas terapias), posso falar desse outro lado da festa.
Tenta-se elevar os brios, os ânimos e a alto estima, como se fosse um feito fantástico terem mandado (quase expulsos) os filhos desse país para o outro lado do mundo.
Mandados para um país estranho, de costumes completamente diferentes, cultura desconhecida e recepção hostil (mesmo que não tenha sido hostil, foi assim que a maioria sentiu).
E depois, quando tudo melhora, necessitam da força motriz desses descendentes dos expulsos. E como os tratam?
Agora bem melhor do que no início (já sabemos como nos defender e impor, conhecendo nossa força e o direito de cidadania).
Mas, os primeiros, quanta dor e quanta humilhação. Igual aos que foram para o Brasil? Será que cada um teve que experimentar o mesmo veneno?
Uma vez, quando eu morava na Ilha de Shikoku, um senhor japonês de uns setenta e poucos anos, dono de uma fábrica de tempurá, que necessitava de mão de obra brasileira para que seus negócios prosperassem, nos disse claramente no dia da entrevista de admissão em sua fábrica: " Detesto brasileros. Detesto esses descendentes que estão voltando. Eles não são japoneses. Perderam os laços conosco. Os nossos que foram para o Brasil, lá se perderam e seus filhos se tornaram selvagens. E agora voltam e temos que suportar esse tipo de gente estranha e que desconhecem nossa cultura".
Confesso que fiquei pasma diante desse tipo de comentário. Me senti muito mais agredida por ser uma brasileira sem a menor descendência japonesa.
Esse era o pensamento e sentimento de uma grande parcela de japoneses na época e talvez ainda agora.
Não consigo entender o PORQUE dessa divisão do nosso planeta. Dividimos, em paises, territórios, cidades, bairros e ruas. Mas somos todos humanos, com os mesmos direitos e deveres para conosco e o nosso próximo. A divisão é fictícia... feita pelo homem e sem sentido nenhum... a não ser o de separativismo econômico.
Olhos puxados, pele amarelada; olhos grandes, pele branca; gestos contidos, gestos largos; cabelos negros, cabelos loiros; ossos miúdos e baixa estatura, ossos largos e alta estatura. Tudo isso é invólucro somente.
Nossos sentimentos são os mesmos, só a maneira de nos expressar é que difere.
Somos todos viajantes sem destino desse planeta. De vida efêmera. Mal chegamos e já estamos de partida. Sentimos as mesmas dores e as mesmas alegrias.
As nossas diferenças não deveriam nos separar, mas unir mais ainda, para uma troca. Um real interesse em nos mesclar na busca de maior entendimento e parceria.
Vejo aqui os tambores tocando em festa, pelo centenário da imigração e penso... "esses tambores que soam aqui ... soam da mesma maneira lá. Mas será que esses sons não poderiam realmente se unir para construir alguma coisa melhor... um mundo sem diferenças... sem preconceitos... sem que um se sentisse melhor que o outro?"
Esses tambores poderiam trazer em seu som forte a vontade de realmente abraçar o outro envolvendo no seu toque a parceria e o amor ao próximo?
Um dos sentimentos mais abjetos que o ser humano possa ter é o preconceito. Achar que por ter uma aparência "assim ou assado", pode ser melhor do que o outro com outro tipo de aparência. Essa espécie de nojo pela diferenças e estando em maioria tratar o diferente com desprezo.
Conheço muito pouco das dores dos que vieram para o Brasil, mas posso imaginar em detalhes, sim.
Mas senti na pele o preconceito e o desprezo pelos que foram para o Japão. Vi as dores dos descendentes que perderam sua identidade. Aqui no Brasil são japoneses e no Japão sao brasileiros. Essa ambiguidade os desestabilizou fazendo com que sua auto-estima desaparecesse e uma intensa dor abrisse seu peito e sangrasse em público.
Os que levaram consigo uma esposa, ou esposo não descendente passavam ainda por mais dificuldades, pois eram vistos como desertores da cultura niponica. E seus parceiros eram tidos como os selvagens que acompanhavam os descendentes. Tudo isso eu vi... tudo isso eu vivi.
Lentamente fui vendo também as modificações. Mais aceitação, mais companheirismo... mas ainda não o suficiente para que possamos dizer com clareza de voz... "somos aceitos incondicionalmente".
Gostaria muito, mas muito mesmo que os tambores que tocam de lá e de cá... fossem tambores tocados com a alma e a aceitação de que Somos Seres ... da Raça Humana... com suas necessidades, carências e o coração cheio de amor (embora muitos tentem esconder) pronto para receber e consequentemente doar.
Que por necessidade, tiveram que sair...ir e vir... para poder sentir e viver com dignidade...
Espero... espero mesmo... que esse centenário traga a união definitiva dos Taikos, dos Atabaques, dos Zabumbas, dos Tamborins... e todos nós numa só batida no couro, pudessemos nos unir com o pulsar da Mãe Terra e espalhar esse som pelo Universo... dizendo... "aqui... nesse planetinha da periferia da Via Láctea... moram seres que se amam apesar das diferenças".
Paz Profunda
She
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Escritora, terapeuta (TVP), palestrante, curso de energização e retirada de implantes. Atendendo agora em Alto Paraiso (GO). Consultas: (62) 3446-1990 E-mail: [email protected] | Mais artigos. Saiba mais sobre você! Descubra sobre Autoconhecimento clicando aqui. |